Para os políticos…

Depois de agonizar sobre os números da pandemia de COVID 19, resolvi transformar os números em algo que os políticos podem entender: número de eleitores.

A ideia é que os doentes e mortos não existem em um universo separado. Na realidade, cada um tem família e amigos. Ou seja, gente que se importa pelo fato de que esse pessoal sofreu ou mesmo faleceu com a doença. E possivelmente vão se lembrar disso nas próximas eleições.

Para simplificar a análise trato do número de falecidos, e da probabilidade, que nada mais é que o número de mortos por milhão dividido pelo número de milhões que o país tem.

Então, no momento, há 1225 mortos por milhão no Brasil. Isto corresponde a um percentual de mortos de .5805687204e-3 ou 0.0006% da população total aproximadamente.

Naturalmente, os mortos não votam. Mas seus parentes e amigos sim. Então considerando os grupos de Whatsapp familiares,vamos ver a chance que em um grupo de 50 pessoas, pelo menos uma tenha morrido de COVID.

1-(1-p)^50 = 0.029 que é aproximadamente 0.03 ou 3%

Isto permite o cálculo do número esperado de pessoas no Brasil que está nessa situação. Este número é de seis milhões de pessoas. E um percentual significativo destes culpará os governantes pelas mortes.

Esse percentual não vai esquecer e não vai deixar que ninguém se esqueça. Tanto faz se a eleição é em 2022, 2024 ou 2026. Não irão esquecer que parte destes mortos poderiam estar vivos agora, mesmo que isso não faça sentido. Afinal, faz mais sentido culpar um governante pelos erros cometidos no combate a pandemia. E quem vai dizer que a culpa está na pessoa errada? Não é um discussão racional (mesmo porque os governantes cometeram muito erros mesmo, e o presidente tem destaque nisso).

Esses, além de eleitores, podem afetar a eleição. Não é improvável que este pessoal ajude a transformar a imagem de um candidato em inimigo do povo. E não vai ter adiantar televisão, rádio ou internet para mudar isso – aqui o caso é, possivelmente, sangue nos olhos ou mágoa no coração.

Esta é, aproximadamente, a situação atual.

Mas o que acontece se esse percentual dobrar? Aí o número sobe para 12 milhões (o que significaria cerca de 500 mil mortos). Isto corresponderia a uma taxa de 2250 por milhão. Na amazônia, esta taxa se encontra em 2657 por milhão. E aí…

Então, srs. governantes, é bom ficarem espertos… Pois esse pessoal não esquece, e não deixa ninguém esquecer…

Quantas pessoas que você conhecem podem estar doentes?

Prezados, depois de um bom hiato, e de descobrir que meu antigo blog ainda pode ser utilizado para novas mensagens, eu estou de volta.

Nesses tempos de COVID-19 (COronaVIrus Disease 2019), há muitos conceitos de biologia, química, matemática, estatística e mesmo engenharia flutuando no ar. E um dos tópicos que desejo tratar aqui é sobre a questão de uma unidade relativa ao assunto: infectados por milhão de habitantes (NIpm).

Esse número é, na realidade, uma medida equivalente a probabilidade (população dividido por população). E pode estar relacionado a chance que você conheça alguém com a doença.

Como a probabilidade de alguém estar infectado pode ser descrita, de modo simplificado, como o número de infectados (NI) dividido pela população geral (NT), ou seja: p=NI/NT.

Já o número de infectados por milhão é igual a p*100000. Ou seja NIpm=p*1000000. Assim, p=NIpm/100000. Portanto, para obter a probabilidade de alguém estar infectado é simplesmente o número de infectados por milhão, dividido por 1 milhão .

Então como utilizar isso? Vamos dizer que haja aleatoriedade em que você conheça alguém que tem ou não a doença. O conjunto é (p+q)=1, aonde p é a probabilidade de ter a doença e q é 1-p. Portanto, ao encontrar aleatoriamente n pessoas, temos o binômio de Newton (p+q)^N. No caso de duas pessoas (N=2), podemos expandir com facilidade:

p^2+2*p*q+q^2

Já a chance que nenhuma dessas pessoas tenha a doença é q^2. Ou, seja a chance que uma ou mais delas tenha a doença é 1-q^2=1-(1-p)^2.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado se temos N pessoas, neste caso a probabilidade é 1-(1-p)^N.

Para valores pequenos de p (ou seja, quando o número de infectados por milhão é pelo menos 100 vezes menor que 1 milhão), esta expressão pode ser aproximada por:

1-1+N*p=N*p

Lembrando que NIpm=p*1000000, portanto a chance pode ser aproximada por N*NIpm/1000000

Bom, aí quando é que esta chance é de 50%?  É quando N*NIpm/1000000=1/2. Rearranjando:

N=500000/NIpm

Colocando números, se NIpm=50, com 10000 amigos há uma chance de 50%. Com 500, o número de amigos passa a ser 1000. Ou seja, considerando um processo aleatório, se você tiver 1000 conhecidos se o número de infectados por milhão exceder 500, então há uma chance de 50% que algum dos seus conhecidos tenha a doença.

Bom e como estão os números hoje (28 de maio de 2020)? Existem cerca de 220 mil casos ativos. Se arredondarmos a população brasileira para 220 milhões isto significa 1 caso em mil. Ou, em termos de infectado por milhão, temos NIpm=1000.

Utilizando as equações temos: N*1000/1000000=1/2, ou N=500. Ou seja se você tem 500 amigos, há uma chance de 50% de pelo menos um deles estar infectado.

 

Enigmas Matemáticos 1

Mais um post do antigo blog!

OS TRINTA E CINCO CAMELOS – Malba Tahan
Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:
— Não pode ser!
— Isto é um roubo!
— Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
— Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
— É muito simples — atalhou o “homem que calculava”. — Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe.
Neste ponto, procurei intervir na questão:
— Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?
— Não te preocupes com o resultado, ó “bagdali”! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz. — Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
— Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como vêem, em número de 36.
E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
— Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
— E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
— E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.
Numa voz pausada e clara, concluiu:
— Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao “bagdali” meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.
— Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos. — Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e eqüidade.
E o astucioso Beremiz — o “homem que calculava” — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
— Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. Tenho outro, especialmente para mim.
E continuamos a nossa jornada para Bagdá.

Muito bem, o que aconteceu aqui? Que mágica foi essa? Ah, não há mágica nenhuma: a partilha é que não “cobria” todos os animais.

Vamos dizer que tivéssemos X camelos. O irmão mais velho receberia X/2, o do meio X/3 e o mais novo X/9.

Para simplificar vamos dizer que X fosse igual a 18. Assim o irmão mais velho receberia 9, o do meio 6 e o mais novo 2. Note que 9+6+2 é 17 e não 18. Isto significa que sobraria um camelo de qualquer modo. Na verdade X/2+X/3+X/9 = 34/36 = 17*X/18.

Ora se ao invés de 18 camelos tivéssemos 36 camelos (X=36) então X/2+X/3+X/9 = 34. Ou seja sobrariam 2 camelos. E o irmão mais velho receberia 18, o do meio 12 e o mais novo 4. O que fazer com os dois camelos? Ora eles não fariam parte da partilha de qualquer modo…

Já se a partilha fosse X/2, X/3 e X/6, então o matemático ficaria sem seu camelo, pois neste caso o irmão mais velho receberia 18, o do meio 12 e o mais novo 6. E 18+12+6 é 36.