Olhando no Retrovisor – COVID 19 – Parte 1

Bom, como já se passaram alguns anos após a pandemia de COVID-19, creio que é hora de olhar de modo mais crítico o problema dos erros e dos acertos durante o período. Para tanto vamos começar dando uma olhada nos dados que colhemos ao longo da pandemia e depois vamos comparar com as predições.

Primeiro vamos ver o número de casos acumulado durante o período da COVID

Temos ao final de 2024 o número de cerca de 39 milhões (39.073.544). Bom, isto não são os 2013 milhões de brasileiros, então a primeira pergunta é por quê?

Bom, a resposta é relativamente simples: após um certo tempo nem todas as infecções de COVID eram informadas, e talvez isso seja mais claro no gráfico do número de casos por semana.

Se olharmos a variação semana a semana fica claro que temos alguns momentos diferentes. Até a semana 94, parece que temos um comportamento mais ou menos esperado de uma doença se difundindo em uma população, mas depois dessa semana temos três picos  bem característicos que indicam algo diferente da infecção inicial. Vamos ver com relação a linha do tempo: a vacinação começou em janeiro de 2021 (mais ou menos na semana 44) e em setembro de 2021 cerca de 80-90% da população tinha sido ao menos parcialmente vacinada (mais ou menos na semana 77). Assim até a última semana de 2021 (semana 94) temos mais ou menos o comportamento esperado.  Mas então temos três picos : semana 98 (1.30 milhões), semana 120 (409 mil) e semana 144 (321 mil). As razões para esses picos? Francamente não sei… Mas tenho suspeitas…

Além do número de casos temos ainda o número de óbitos. Algo que durante muito tempo foi elemento de grande contestação.

Mas para vermos melhor vamos colocar as curvas de casos e óbitos acumulados na mesma escala e em conjunto

Aqui as coisas começa a ficar estranhas: o número de óbitos pré-data o número de casos. Normalmente o que esperamos é que o número de casos aumente e isso seja seguido por um aumento no número de óbitos. Isso só é o caso quando temos vacinação antes, assim o número de óbitos acumulado se estabiliza em um máximo enquanto o número de casos acumulados ainda vai aumentar mais. Mas isso é o que se espera após uma vacinação. Vamos dar uma olhada no número de óbitos a cada semana

Esta curva é bem diferente da curva dos números de casos a cada semana. Para começar, depois da semana 91, os picos são substancialmente menores e ocorrem em pontos diferentes. Os picos de casos infeção após a semana 91 ocorreram na semana 98 (1.30 milhões), semana 120 (409 mil) e semana 144 (321 mil). Já os picos de óbito ocorreram nas semanas 100 (6.3 mil), semana 122 (1.7 mil) e 146 (1.2 mil)

Vamos ver os dois gráficos em conjunto, e com normalizados de modo apropriado (cada um dividido pelo seu número final).

Aqui temos algumas informações interessantes, sendo a primeira é que a taxa de mortalidade varia ao longo do período, sendo maior até a semana 91 e bem menor depois disso. Há também algo estranho no início da pandemia: até a semana 37, a mortalidade parece preceder o aumento no número de casos. Isso em parte pode ser explicado se houver sub notificação no início da pandemia (ou mais especificamente se há alguma dificuldade em associar a causa da morte a COVID).

o primeiro grande salto começa na transição da última semana de 2021 para primeira semana de 2022 (de 40 mil para 208 mil). Aqui é que eu tenho uma suspeita: não temos uma única infecção de COVID, sendo que algumas se misturam. Temos aproximadamente:

  1. Uma infecção da semana 1 até a 30
  2. Uma infecção da semana 30 até 91
  3. Uma infecção da semana 91 até 109
  4. Uma infecção da semana 109 até 117
  5. Uma infecção da semana 136 até 154

Podemos usar o modelo SIR mais simples para ver como seria o comportamento em uma pandemia. É isso é que vou fazer em um próximo post.

Para os políticos…

Depois de agonizar sobre os números da pandemia de COVID 19, resolvi transformar os números em algo que os políticos podem entender: número de eleitores.

A ideia é que os doentes e mortos não existem em um universo separado. Na realidade, cada um tem família e amigos. Ou seja, gente que se importa pelo fato de que esse pessoal sofreu ou mesmo faleceu com a doença. E possivelmente vão se lembrar disso nas próximas eleições.

Para simplificar a análise trato do número de falecidos, e da probabilidade, que nada mais é que o número de mortos por milhão dividido pelo número de milhões que o país tem.

Então, no momento, há 1225 mortos por milhão no Brasil. Isto corresponde a um percentual de mortos de .5805687204e-3 ou 0.0006% da população total aproximadamente.

Naturalmente, os mortos não votam. Mas seus parentes e amigos sim. Então considerando os grupos de Whatsapp familiares,vamos ver a chance que em um grupo de 50 pessoas, pelo menos uma tenha morrido de COVID.

1-(1-p)^50 = 0.029 que é aproximadamente 0.03 ou 3%

Isto permite o cálculo do número esperado de pessoas no Brasil que está nessa situação. Este número é de seis milhões de pessoas. E um percentual significativo destes culpará os governantes pelas mortes.

Esse percentual não vai esquecer e não vai deixar que ninguém se esqueça. Tanto faz se a eleição é em 2022, 2024 ou 2026. Não irão esquecer que parte destes mortos poderiam estar vivos agora, mesmo que isso não faça sentido. Afinal, faz mais sentido culpar um governante pelos erros cometidos no combate a pandemia. E quem vai dizer que a culpa está na pessoa errada? Não é um discussão racional (mesmo porque os governantes cometeram muito erros mesmo, e o presidente tem destaque nisso).

Esses, além de eleitores, podem afetar a eleição. Não é improvável que este pessoal ajude a transformar a imagem de um candidato em inimigo do povo. E não vai ter adiantar televisão, rádio ou internet para mudar isso – aqui o caso é, possivelmente, sangue nos olhos ou mágoa no coração.

Esta é, aproximadamente, a situação atual.

Mas o que acontece se esse percentual dobrar? Aí o número sobe para 12 milhões (o que significaria cerca de 500 mil mortos). Isto corresponderia a uma taxa de 2250 por milhão. Na amazônia, esta taxa se encontra em 2657 por milhão. E aí…

Então, srs. governantes, é bom ficarem espertos… Pois esse pessoal não esquece, e não deixa ninguém esquecer…