Bem, este é um tema que já mencionei antes na versão anterior do Blog. Vou colocar aqui o que eu escrevi:
“Este é o mote de uma piadinha de físico muito famosa:
“Um fazendeiro contratou um físico para modelar sua fazenda de forma a otimizar o seu espaço. O físico foi a fazenda, avaliou, fez diversas anotações, e foi embora, passando semanas sem dar notícias. Outro dia, então, aparece ele afirmando que havia encontrado a resposta; começou então a sua brilhante explanação:
– Considere que seu gado seja constituído por vacas esféricas se movendo no vácuo…”
Há diversas variações da mesma…
“Considere o espaço de Hilbert das vacas esféricas no vácuo, com densidade constante, na ausência de gravidade, expelindo leite isotropicamente e com fluxo constante F para um dado referencial S. Dado o operador autoadjunto “gravidez da vaca” G, calcule a probabilidade de ela estar prenha.”
Todas tratam do mesmo tema: a simplificação exagerada de um modelo físico (conhecido popularmente no meio como Toy Model). A parte interessante disso é a precisão do modelo varia com a aplicação. Por incrível que pareça, o modelo “Animal Esférico” tem aplicações interessantes (aos que estão curiosos: o uso do modelo de animal esférico permite explicar a relação de necessidade de manutenção de energia em organismos vivos).
Mas, com uma frequência assustadora, esta tendência de simplificação exagerada de modelo costuma aparecer em diversos ramos das ciências. As consequências podem ir de relativamente simples (algumas interessantes são o problema da contratação da secretária, o das rainhas no tabuleiro e outros), até consequências bastante sérias.
Não, não irei atacar a questão do aquecimento global aqui (apesar de já estar gerando afirmações quase irresponsáveis). Vou tratar de um assunto mais abrangente: do que lhe é mostrado, consegue identificar o que resultado de um modelo simplificado do que é resultado de um modelo mais refinado?
Vamos a alguns casos:
- Os livros de história estão cheios de informações que os europeus mataram milhões de índios. Mas, como se sabe quantos índios haviam antes dos europeus chegarem?
- Um estudo publicado recentemente afirma que 75% dos brasileiros nunca pisaram em uma biblioteca. Como se chegou a este número?
- Os veículos de comunicação estão cheio de notícias ligadas a saúde afirmando que determinadas substâncias fazem bem ou fazem mal a você. Como pode uma substância fazer mal e depois fazer bem e vice versa?
- Como se pode afirmar que o planeta terra terá problemas com a água se 3/4 da sua superfície é água?
- Como é que alguém pode saber que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil?
Se você não sabe a respostas a estas perguntas não se preocupe. A maioria das pessoas engole esta informação sem pestanejar. Ora bolas, mesmo especialistas vez por outra caem na armadilha de supor que o modelo é a realidade.
A verdade é que todas estas questões têm respostas perfeitamente lógicas e não contém nenhum paradoxo a partir do momento que se saí do Toy Model para um modelo mais refinado (não há contradições com a afirmação original, apenas imprecisões). O problema é que via de regra, para descobrirmos que estamos usando um modelo do tipo “Vaca Esférica”, alguma coisa tem que dar muito errado.
Como resolver este problema? Bem, temos que ter muito cuidado e atenção no uso dos nossos modelos e devemos sempre saber quais são as premissas envolvidas neste modelo.”